terça-feira, 6 de maio de 2014

A insignificância é um privilégio de cada um

A noite estava quente. Ele acordou e se sentou em seu banco no canto da praça. Respirou fundo, coçou a barba e bateu a mão no bolso da frente da camisa rasgada para checar se tinha cigarros.
Sobraram dois. Puxou um e o ascendeu com um fósforo. Deu uma tragada demorada e olhou para a avenida para saber que horas eram. Era madrugada, não havia tantos carros passando e a cidade já estava sonolenta, sem buzinas e pessoas andando. Queria tomar cachaça, mas estava sem dinheiro e pedir no sinal não lhe daria trocados àquela hora. Tragou mais uma vez e sorriu ao ver o cachorro vindo em sua direção - ia ter alguém pra conversar. O cachorro ossudo e sarnento se aproximou e cheirou sua perna. Ele tentou acariciá-lo mas o bicho não lhe deu atenção e foi embora do mesmo jeito que viera. Resmungou alguma coisa para o cachorro e, depois de dar uma última puxada no cigarro, jogou a bituca com raiva.
Levantou-se; jogou o cobertor no ombro e começou a andar em direção à avenida. Andou sozinho na calçada e pensou, ao ver um bando de moleques vagabundeando na praça, por que não estavam no aconchego de casa. Será que não tinham casa? Não, certamente tinham casa, vestiam-se bem. Por que estavam então na rua? Continuou andando sem noção do tempo, fazendo o caminho que fazia todas as noites. Chegou na ponte da cidade, extremamente alta que ligava duas ilhas e era movimentadíssima quando sob o sol, mas que àquela hora sustentava meia dúzia de carros. Amarrou o cobertor na cintura e quase que automaticamente, sem pensar, se juntou às ferragens e começou a escalar. Escalava com a mesma facilidade com que caminhava, com a mesma naturalidade que ascendia um cigarro.
No alto, ele sentou no parapeito, jogou a coberta nas pernas e ascendeu o último cigarro. Olhou a cidade que agora estava pequena enquanto ele era grande. Não a admirava. Tinha raiva dela. Percebeu como o reflexo das luzes dos prédios na água, as luzes em si e as luzes das estrelas no céu negro logo acima formavam um degradê. Não era bonito. A cidade era maldosa, não podia ser bonita.
Por algum tempo - ele não tinha noção de quanto) - ficou olhando o degradê das luzes, se contentando com a brisa quente que vinha de vez em quando e fumando seu último cigarro. Olhou para baixo, viu a imensidão do mar e se sentiu pequeno de novo. Deu uma última tragada e largou a bituca no vento, que demorou pra tocar na água em baixo. Largou também o cobertor, que flutuou no ar e caiu no mar mais a frente.
Não era importante. O máximo de diferença que fazia era incomodar cada motorista parado no sinal por um tanto de tempo. Ele não tinha nem noção de quanto. Era pequeno, insignificante, fazia parte de uma pequena fração do dia de cada motorista. Ninguém o conhecia. Não tinha nada a perder, já não tinha mais seu cobertor e tinha fumado seu último cigarro. Olhou de novo o degradê e sem pensar. Voou. Flutuou por algum tempo com a brisa no rosto - ele não sabia quanto - e seu corpo bateu na água.
Mal sabia ele que, realmente, não era importante. Mas que sua insignificância não era maior que a dos motoristas no sinal.

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