segunda-feira, 5 de maio de 2014

Eduardo e Mônica

10 anos, 2 meses e 5 dias ANTES - 19:07 - República do Edu:
–Vamo Edu! Chega de estudar! É sexta-feira cacete!
–Quarta-feira tem prova e eu nem comecei a estudar ainda...
–A gente estuda amanhã, vai logo tomar banho e vamos!
Eduardo pensou em retrucar, mas poupou energias porque sabia que seria inútil. Não estava nem um pouco a fim de passar a noite lendo "Sustentabilidade nas obras e projetos". Pensou na prova, na matéria que se acumularia... – "Já tá pronto, Edu?" – e aí pensou na cerveja, no barulho do barzinho de sempre, na música ao vivo. Fechou o livro que tinha acabado de abrir. Foi tomar banho.

10 anos, 2 meses e 5 dias ANTES - 19:07 – República da Mônica:
–Cadê a Mônica?
–Tá dormindo.
–Ela não vai com a gente?
"Eu vou!", Mônica gritou do quarto para as amigas que começavam a se arrumar no quarto ao lado. Sentou na cama, esfregou os olhos e checou se tinha alguma mensagem no celular. Foi tomar banho.

16 anos, 6 meses e 5 dias DEPOIS - 20:15 – Na casa deles:
–Mãe! O pai vai demorar muito?
–Acho que não, filha. Deve estar chegando – respondeu Mônica enquanto se olhava concentrada no espelho para não borrar a maquiagem.
Eduardo abre a porta no andar de baixo, joga a jaqueta no sofá e grita: "Tá pronta, amor?", e ela, que tinha acabado de passar o batom vermelho que ele adorava respondeu do mesmo jeito: "quase!".

–Paaaaai! - Vem o menino correndo e pula nos braços do pai já dando um abraço apertado - Você e a mamãe vão sair hoje?
–Oi filho! Vamos. A sua irmã vai ficar com você.
–A mamãe tá bonita! - o menino avisa o pai dando uma risada e puxando-o pelo braço.
–Ah é? Vamos lá dar um beijo nela então!
Ele subiu as escadas com o filho, abriu a porta do quarto e:
–Nossa! Oi amor! Como você tá linda! - Eduardo falou ainda meio bobo perto dela, mesmo depois de tanto tempo.
–Oi amor! - Ela respondeu com um sorriso, que com o batom vermelho deixava sua boca irresistível - tô quase pronta!
–Vou só tomar um banho e a gente já vai.
10 anos, 2 meses e 5 dias ANTES - 20:37 - No barzinho:
–Nossa Edu! Olha essa mina! – O amigo apontou pra mulher que passava perto da mesa deles - acho que ela tá no nosso campus.
–Hum, é verdade. – Eduardo respondeu, mas não conseguiu esconder o desânimo.
–Que foi Edu? É a prova? Já falei que amanhã a gente estuda.
–Eduardo tomou um gole de cerveja, respirou fundo e deu uma passada de olho no lugar. Ela estava ali, no canto; o olhar dele parou nela.

–Monica! – a amiga a cutucou em baixo da mesa do outro lado do bar. Mônica respirou fundo pra engolir a risada da piada que Amanda tinha acabado de contar, tomou um gole de cerveja ainda com o sorriso do rosto e ergueu as sobrancelhas para a amiga continuar - Aquele cara tá te olhando! As três meninas da mesa viraram pra trás sem nenhum pingo de discrição. Mônica sorriu e tentou esconder o rosto no copo enquanto cruzava o olhar com o de Eduardo.

1 ano, 4 meses e 1 dia DEPOIS - 09:10 - Na porta de casa:
Eduardo abre a porta e ajuda Mônica a entrar no carro. A adrenalina tomando conta dele e Mônica, apesar do barrigão, um tanto mais calma. Eles vão para o hospital naquela manhã nublada de domingo. As ruas estavam desertas, o que ajudou a tranquilizar Mônica que sentia as contrações cada vez mais fortes.
–Vem amor. E continua respirando fundo. – ajudando a moça a descer do carro e segurando a bolsa para não cair do ombro.
–Calma amor, você tá muito desesperado!
–Calma? Calma Mônica? Eu vou ser pai. Como assim "calma"?
Mônica optou por não responder. Duas horas e meia depois (que para Eduardo pareceram duas semanas inteiras só de segundas-feiras): "Você já pode pegar sua filha no colo".

10 anos, 2 meses e 5 dias ANTES - 23:48 – No barzinho:
Ele a beija mais uma vez. Ela ri com o beijo e ele pergunta "o que foi? Não gostou?"
–Não é isso... – Ela responde sorrindo. Nem ela soube na verdade porque riu, só sabia que estava feliz de estar ali com ele.
Eles se olharam fundo. Um olhar intenso, demorado, por quase trinta segundos, mas não houve constrangimento. Eles não conseguiam parar de sorrir e de se olharem. Ele tirou a toca dela, colocou a mecha de cabelo que caíra sobre seu rosto atrás da orelha ainda olhando muito fundo em seus olhos.

0 anos, 0 meses e 0 dias ANTES - 20:03 - Naquele barzinho:
Mesmo depois de dez anos ele estava nervoso. A boca seca, a mão gelada e os constantes frios na barriga. Ele a beija. Ela ri com o beijo. Eles se olharam fundo. Um olhar intenso, demorado, por quase trinta segundos, mas não houve constrangimento. Eles não conseguiam parar de sorrir e de se olharem. Ele colocou as duas mãos no rosto dela, segurando-o como... Como se... Não existia metáfora. Ele se ajoelhou, pegou uma caixinha no bolso de dentro do blazer sem tirar os olhos dos olhos dela.
–Quer casar comigo?

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