Era por volta de 8 e meia da noite, eu estava
na sala encolhido debaixo das cobertas em um canto do sofá. O apartamento vazio
e todas as luzes apagadas, exceto a luz azulada que vinha da televisão que
deixava o ambiente mais aconchegante e me fazia mais sonolento. Estava quase
dormindo, tinha tido um dia cheio... Ficara até tarde na biblioteca
da faculdade estudando pra prova da próxima quarta. Não estava prestando atenção no noticiário, mas quando o âncora disse “É a noite mais fria dos últimos 5 anos” me chamou a atenção, porém não fiquei impressionado. Meus dedos doíam e me esforcei um bocado para me virar no sofá – acabara de decidir que não faria a longa viagem até o quarto e dormiria ali mesmo. Abaixei o volume da voz do repórter mas não desliguei a televisão. Em um apartamento vazio, por algum motivo me sentia mais confortável dormindo com a TV ligada.
da faculdade estudando pra prova da próxima quarta. Não estava prestando atenção no noticiário, mas quando o âncora disse “É a noite mais fria dos últimos 5 anos” me chamou a atenção, porém não fiquei impressionado. Meus dedos doíam e me esforcei um bocado para me virar no sofá – acabara de decidir que não faria a longa viagem até o quarto e dormiria ali mesmo. Abaixei o volume da voz do repórter mas não desliguei a televisão. Em um apartamento vazio, por algum motivo me sentia mais confortável dormindo com a TV ligada.
Peguei no sono cedo, ali mesmo – e apesar do
sofá duro, o cansaço o fez parecer o melhor e mais macio dos colchões. O
barulho do celular tocando vindo da cozinha me acordou. Por um momento, no
doído e gelado caminho entre a sala e a cozinha pensei que seria algo grave por
ligarem tão tarde, mas logo lembrei-me que tinha ido dormir excepcionalmente
cedo. Irritado por ter acordado e ainda mais irritado por não achar o celular o
maldito celular, ao encontrá-lo em cima da geladeira e ver o nome dela escrito
no visor, imediatamente minhas sobrancelhas franzidas se desfizeram e um
sorriso veio forte no canto da boca.
–Alô. – atendi com a voz falhada.
–Oi, te acordei? – ela perguntou com
uma voz fraca, muito diferente da voz forte que espelhava sua personalidade.
–Não. Eu tava vendo televisão. –
porque sabia que se dissesse que já estava dormindo, ela me mandaria voltar e
não falaria por nada o motivo pelo qual ligara.
–Não tô muito bem. Vem fazer alguma
coisa pra eu comer?
–Vou trocar de roupa e tô indo.
Desliguei o telefone e por conta do
sono fiquei parado por alguns segundos olhando para o chão. Fui até a sala,
ascendi a luz, desliguei a televisão que já passava a novela, apanhei a calça
jeans em cima da cadeira e vesti. Não troquei a camiseta velha que estava com
um furo na manga, mas não importava, porque em um frio daqueles não tiraria a
jaqueta por nada. Sentei no mesmo canto do sofá, ainda quente por causa das
cobertas e calcei o coturno preto surrado que estava no chão.
Diferentemente de todas as vezes,
usei o elevador para descer do segundo andar. Eu gostava de usar as escadas –
me sentia mais autônomo, eu acho – mas o sono falou mais forte. Entrei no carro
e fui para a casa dela.
Quando cheguei, toquei o interfone e
o portão elétrico abriu quase que imediatamente. Entrei, subi as escadas e ao
entrar no quarto a vi sentada na cama debaixo de dois cobertores e um edredom,
com os joelhos encolhidos e o nariz vermelho.
–Oi! – que queria dizer “o que
aconteceu?”.
–Oi. – que depois de conhecê-la por
11 anos, me serviu de resposta. Um “oi” fraco, de orgulho partido, de alguém
que se rendeu aos princípios de mulher forte e independente e pediu um amigo.
Me sentei na cama, coloquei a mão nos
pés dela por cima da coberta e perguntei:
–O que aconteceu?
–Tô doente.
–Aham. Você pediu pra eu vir aqui
pedir sua febre? Fala o que aconteceu.
–Terminei.
–Ah é? – Respondi erguendo as
sobrancelhas me esforçando muito para não deixar transparecer o ar de
felicidade que repentinamente tomou conta de mim.
–É. Fui eu que terminei. Mas eu não
quero falar disso.
–Não? Por que me chamou aqui então?
–Porque eu queria companhia, saco! Se
não quiser ficar pode ir embora. – esbravejou.
Não me considero nem um pouco
insensível, só estava sendo difícil conter a euforia da notícia e agir com
normalidade. Eu não era apaixonado por ela. Tudo bem que já tinha tido minhas
quedinhas por ela, e que a admirava excepcionalmente como mulher, e que gostava
da sua personalidade forte, que babava todas as vezes que ela passava o batom
vermelho, que sorria quando ela prendia o cabelo de qualquer jeito com um lápis
pra sair de casa sem compromisso, que achava fascinante como aqueles olhos
verdes eram bem desenhados formando um par perfeito com as sobrancelhas e que
estes, brilhavam cada vez que ela contava um sonho. Mas eu não era apaixonado
por ela.
–O que você quer que eu faça pra
comer?
–Não sei, você sabe o que eu gosto.
Vê o que tem lá na cozinha e pode fazer.
Concordei balançando a cabeça e antes
de sair do quarto fiz um carinho no joelho dela. Ela me olhou por um momento
até abaixar a cabeça e começar a chorar. Sentei na cama do lado dela e passei
meu braço por cima do seu ombro. O choro ficou mais forte, mais doído. Percebi
que a muralha que ela mantinha caíra, que o choro foi o mais sincero, não pela
perda, mas pelo fato de que ela teve que abrir mão da imagem forte naquele
momento. Com a cabeça apoiada no meu peito, ela me deu alguns socos nas costas
e eu a apertei forte. Segurei seu rosto com as duas mãos e enxuguei suas
lágrimas.
–Você confia em mim? – Perguntei
olhando nos olhos dela.
Ela concordou com a cabeça enquanto
eu secava os dedos na minha camiseta e colocava a mecha de cabelo que caíra em
seu rosto atrás da orelha.
– Então acredite quando eu te digo
que no final tudo vai dar certo. Eu sei que a sua dor é grande e não vou te
dizer que ela vai passar amanhã. Você vai sofrer, mas eu vou estar do seu lado
se você precisar. E o mais importante: você é forte. É a pessoa mais forte que
eu conheço, e você pode achar que não, mas eu conheço cada detalhe seu.
Ela parou de chorar. A gente ficou na
cama acordado até amanhecer conversando sobre coisas banais. Ela até riu
algumas vezes. E depois de algumas horas que passaram rápido demais (como
sempre que eu estava com ela), ela me levou até o portão. Eu dei um beijo na
testa dela, apertei sua bochecha de leve e disse “Fica bem tá? Qualquer coisa,
já sabe.” Ela sorriu e eu entrei no carro. Ela ficou ali, encostada no muro
olhando pra mim e eu fiquei olhando pra ela. Naquele momento não tive certeza
de nada, só de que algum jeito, eu soube que ela mexia comigo.
Agora estou atrasado, preciso ir. Nós
vamos comemorar nosso primeiro aniversário de casamento.
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