segunda-feira, 5 de maio de 2014

O acaso está escrito

Era por volta de 8 e meia da noite, eu estava na sala encolhido debaixo das cobertas em um canto do sofá. O apartamento vazio e todas as luzes apagadas, exceto a luz azulada que vinha da televisão que deixava o ambiente mais aconchegante e me fazia mais sonolento. Estava quase dormindo, tinha tido um dia cheio... Ficara até tarde na biblioteca
da faculdade estudando pra prova da próxima quarta. Não estava prestando atenção no noticiário, mas quando o âncora disse “É a noite mais fria dos últimos 5 anos” me chamou a atenção, porém não fiquei impressionado. Meus dedos doíam e me esforcei um bocado para me virar no sofá – acabara de decidir que não faria a longa viagem até o quarto e dormiria ali mesmo. Abaixei o volume da voz do repórter mas não desliguei a televisão. Em um apartamento vazio, por algum motivo me sentia mais confortável dormindo com a TV ligada.
Peguei no sono cedo, ali mesmo – e apesar do sofá duro, o cansaço o fez parecer o melhor e mais macio dos colchões. O barulho do celular tocando vindo da cozinha me acordou. Por um momento, no doído e gelado caminho entre a sala e a cozinha pensei que seria algo grave por ligarem tão tarde, mas logo lembrei-me que tinha ido dormir excepcionalmente cedo. Irritado por ter acordado e ainda mais irritado por não achar o celular o maldito celular, ao encontrá-lo em cima da geladeira e ver o nome dela escrito no visor, imediatamente minhas sobrancelhas franzidas se desfizeram e um sorriso veio forte no canto da boca.
–Alô. – atendi com a voz falhada.
–Oi, te acordei? – ela perguntou com uma voz fraca, muito diferente da voz forte que espelhava sua personalidade.
–Não. Eu tava vendo televisão. – porque sabia que se dissesse que já estava dormindo, ela me mandaria voltar e não falaria por nada o motivo pelo qual ligara.
–Não tô muito bem. Vem fazer alguma coisa pra eu comer?
–Vou trocar de roupa e tô indo.
Desliguei o telefone e por conta do sono fiquei parado por alguns segundos olhando para o chão. Fui até a sala, ascendi a luz, desliguei a televisão que já passava a novela, apanhei a calça jeans em cima da cadeira e vesti. Não troquei a camiseta velha que estava com um furo na manga, mas não importava, porque em um frio daqueles não tiraria a jaqueta por nada. Sentei no mesmo canto do sofá, ainda quente por causa das cobertas e calcei o coturno preto surrado que estava no chão.
Diferentemente de todas as vezes, usei o elevador para descer do segundo andar. Eu gostava de usar as escadas – me sentia mais autônomo, eu acho – mas o sono falou mais forte. Entrei no carro e fui para a casa dela.
Quando cheguei, toquei o interfone e o portão elétrico abriu quase que imediatamente. Entrei, subi as escadas e ao entrar no quarto a vi sentada na cama debaixo de dois cobertores e um edredom, com os joelhos encolhidos e o nariz vermelho.
–Oi! – que queria dizer “o que aconteceu?”.
–Oi. – que depois de conhecê-la por 11 anos, me serviu de resposta. Um “oi” fraco, de orgulho partido, de alguém que se rendeu aos princípios de mulher forte e independente e pediu um amigo.
Me sentei na cama, coloquei a mão nos pés dela por cima da coberta e perguntei:
–O que aconteceu?
–Tô doente.
–Aham. Você pediu pra eu vir aqui pedir sua febre? Fala o que aconteceu.
–Terminei.
–Ah é? – Respondi erguendo as sobrancelhas me esforçando muito para não deixar transparecer o ar de felicidade que repentinamente tomou conta de mim.
–É. Fui eu que terminei. Mas eu não quero falar disso.
–Não? Por que me chamou aqui então?
–Porque eu queria companhia, saco! Se não quiser ficar pode ir embora. – esbravejou.
Não me considero nem um pouco insensível, só estava sendo difícil conter a euforia da notícia e agir com normalidade. Eu não era apaixonado por ela. Tudo bem que já tinha tido minhas quedinhas por ela, e que a admirava excepcionalmente como mulher, e que gostava da sua personalidade forte, que babava todas as vezes que ela passava o batom vermelho, que sorria quando ela prendia o cabelo de qualquer jeito com um lápis pra sair de casa sem compromisso, que achava fascinante como aqueles olhos verdes eram bem desenhados formando um par perfeito com as sobrancelhas e que estes, brilhavam cada vez que ela contava um sonho. Mas eu não era apaixonado por ela.
–O que você quer que eu faça pra comer?
–Não sei, você sabe o que eu gosto. Vê o que tem lá na cozinha e pode fazer.
Concordei balançando a cabeça e antes de sair do quarto fiz um carinho no joelho dela. Ela me olhou por um momento até abaixar a cabeça e começar a chorar. Sentei na cama do lado dela e passei meu braço por cima do seu ombro. O choro ficou mais forte, mais doído. Percebi que a muralha que ela mantinha caíra, que o choro foi o mais sincero, não pela perda, mas pelo fato de que ela teve que abrir mão da imagem forte naquele momento. Com a cabeça apoiada no meu peito, ela me deu alguns socos nas costas e eu a apertei forte. Segurei seu rosto com as duas mãos e enxuguei suas lágrimas.
–Você confia em mim? – Perguntei olhando nos olhos dela.
Ela concordou com a cabeça enquanto eu secava os dedos na minha camiseta e colocava a mecha de cabelo que caíra em seu rosto atrás da orelha.
– Então acredite quando eu te digo que no final tudo vai dar certo. Eu sei que a sua dor é grande e não vou te dizer que ela vai passar amanhã. Você vai sofrer, mas eu vou estar do seu lado se você precisar. E o mais importante: você é forte. É a pessoa mais forte que eu conheço, e você pode achar que não, mas eu conheço cada detalhe seu.
Ela parou de chorar. A gente ficou na cama acordado até amanhecer conversando sobre coisas banais. Ela até riu algumas vezes. E depois de algumas horas que passaram rápido demais (como sempre que eu estava com ela), ela me levou até o portão. Eu dei um beijo na testa dela, apertei sua bochecha de leve e disse “Fica bem tá? Qualquer coisa, já sabe.” Ela sorriu e eu entrei no carro. Ela ficou ali, encostada no muro olhando pra mim e eu fiquei olhando pra ela. Naquele momento não tive certeza de nada, só de que algum jeito, eu soube que ela mexia comigo.

Agora estou atrasado, preciso ir. Nós vamos comemorar nosso primeiro aniversário de casamento.


Nenhum comentário:

Postar um comentário